quinta-feira, 12 de julho de 2012

Manter viva a memória, dando passos ao horizonte...



            A vida de cada um/a de nós é tecida numa longa costura de encontros, pessoas, fatos, acontecimentos, sentimentos, lugares, músicas, silêncios, sonhos, dores, alegrias, estudos, formações, opções, escolhas, atividades, medos e desejos. E poderíamos gastar horas e mais horas escrevendo sobre aquilo que vai tecendo a vida de cada um/a e de todos/as nós.
            Os caminhos da vida vão sendo percorridos ora sozinhos, ora com algumas pessoas e ora em coletivos. Por onde vamos passando, vamos deixando marcas na história do lugar e do mundo, uma história que se faz pessoal e que toma feição de coletivo e de coletividade.
            Em tempos de noite neo-liberal e de uma forçada desmemorização, reforçada pelo sistema e por muitas instituições, está diante de todos/as nós o desafio de manter viva e presente nossa memória pessoal e coletiva.
            A memória nos alimenta, nos dá força, nos renova a esperança e nos dá mais firmeza nos passos a caminho do horizonte. A memória nos torna mais felizes, mais ousados/as, mais sonhadores/as e mais esperançosos/as. Pessoas com memória são pessoas perigosas, incomodantes, inquietantes, críticas, conscientes, cuidantes, sonhadoras e felizes. Talvez, por isso, o sistema neo-liberal e muitas instituições queiram matar nossas memórias pessoais e coletivas.
            Sempre foi importante para a humanidade manter viva sua memória. Mas, igualmente sempre foi um exercício desafiador, perigoso, inquietante, subversivo e ousado. E continua a ser hoje.
            É preciso alimentar a memória. É preciso recuperar a memória. É preciso anunciar aos quatro ventos a memória. É preciso manter viva a memória para seguirmos dando passos rumo ao horizonte.

             

As mãos calejadas e o suor de Jesus

Nazaré – lugar do trabalho que sustenta a vida


“Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam:
Esse homem não é o carpinteiro, filho de Maria?”
Marcos 6, 2ss


      Calçando as sandálias surradas de Jesus, no caminho da revitalização da Pastoral da Juventude na América Latina, vamos percebendo que Nazaré se faz espaço de trabalho, de luta, de busca por sobrevivência. Com Maria responsável por todos os trabalhos diários da casa, como arrumar as refeições, fazer o pão de cada dia, buscar água na fonte; e José na profissão de carpinteiro fazendo casas, telhados, cangas, móveis, prateleiras... Com Jesus que vai aprendendo o oficio de carpinteiro...
         Tradicionalmente uma família judaica era organizada assim. Porém, em Nazaré, um povoado pequeno, não seria raro ver a família de Jesus indo toda para a colheita de sementes, bem como os homens ajudarem em trabalhos domésticos. As possibilidades de subsistência deviam ser criadas em tempos em que a fome assolava de maneira muito profunda.
      Jesus conhece bem a vida sofrida dos trabalhadores e trabalhadoras de Nazaré. Jesus foi um trabalhador de Nazaré... Mais tarde em sua missão irá revelar o cuidado que é preciso ter para arar em linha reta. Conhece também o difícil trabalho dos semeadores que nem sempre colhem o que semeiam. Observa que o grão deve ficar bem enterrado para que possa germinar e dar espigas. Sabe ainda, que é difícil separar o joio do trigo... O trabalho e a luta por sobrevivência que Jesus travou em Nazaré junto de seus pais o marcou de tal forma que essas marcas são retomadas na missão de Jesus e no anúncio do Reino.
        Dar-nos conta do Jovem Jesus trabalhando, nesse caminho da Missão Continental e da Revitalização de nossa atuação e presença como Igreja junto dos/as jovens em seus lugares vitais, é dar-nos conta e refletir sobre o trabalho na vida deles/as. De maneira geral, a participação da juventude nos espaços de trabalho é bastante preocupante. Preocupa pela precariedade. Preocupa pela instabilidade. Preocupa pelo desamparo. Para além disso, há também as possibilidades que aparecem com a inserção no universo do trabalho juvenil. Poderíamos dizer que até mesmo a condição juvenil de buscar o lazer, de adquirir alguns bens, de autonomia e liberdade em relação à família são frutos dessa inserção.
     Contemplar jovens buscando estudar para ter um bom emprego; jovens desempregados; jovens ganhando mal e jovens como mão de obra é contemplarmos Jesus Cristo em cada um/a desses/as jovens.
        Em nossa missão como Igreja junto dos/as jovens é preciso ir as lojas, mercados, empresas, indústrias, bancos, escritórios e no campo e lá encontrarmo-nos com a juventude em sua realidade de trabalho. É preciso formar fileira com a juventude na luta por trabalho digno que seja para a vida e não para a morte.
                                                       

                                           Com as sandálias surradas de Jesus, seguimos com os/as jovens na luta pela vida e por trabalho que seja para a vida!



Pe. Maicon André Malacarne – Assessor da PJ da Diocese de Erechim
Luis Duarte Vieira – Militante da PJ e Vocacionado Jesuíta
Gabriel Jaste – Membro da Coordenação Nacional da PJ pelo Regional Leste 1



Aprender o cuidado com nossa Casa



Desde Nazaré, sentindo o cheiro da Conferência Rio + 20 e
da Cúpula dos povos



No caminho de Nazaré, que vivemos intensamente nesse ano de 2012 em se falar do projeto de revitalização da Pastoral da Juventude da América Latina, nos damos conta do espaço onde Jesus cresceu: “em sabedoria, estatura e graça” (Lucas 2,52). Já escrevemos em um texto anterior sobre a casa de Jesus em Nazaré. É interessante percebermos também o cuidado que Jesus teve, desde seu povoado, com o mundo que o rodeava. Viu os pastores cuidando das ovelhas, viu as mulheres indo buscar água no poço, viu as plantações crescendo, o tempo em que a figueira produz frutos e ao ver e viver isso tudo foi assumindo o mundo como sua casa e como tal viveu o cuidado com este mundo.

Desde Nazaré Jesus foi assumindo o cuidado como parte fundante de sua missão e do que ele viveria no encontro com os outros e com o mundo. Jesus foi estabelecendo uma relação tão intensa que em dado momento de sua missão assume radicalmente o mundo como casa, casa de e para todos/as.

No centro do projeto de vida de Jesus estava a construção do Reino de Deus. O Reino só acontece com fraternidade, amor, solidariedade, respeito, distribuição de renda, justiça, igualdade, defesa da vida, harmonia, respeito com a natureza e desenvolvimento sustentável. Se o Reino era o centro do projeto de vida de Jesus, a Comunidade dos/as Seguidores/as de Jesus, também é chamada a construí-lo. A construção do Reino de Deus passa necessariamente pela defesa de todas as formas de  vida no planeta, pelo desenvolvimento sustentável e territorial, ou seja, o lugar de morada de cada um/a, todos/as com vida digna nos lugares vitais de experiência de vida, a casa, a rua, o bairro, a cidade.
Vivemos um tempo em que se está no auge das discussões o cuidado com o planeta, com a casa que recebemos para morar. Nesse mês de junho, onde celebramos o dia do meio-ambiente, acontece o grande encontro chamado Rio + 20 – Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável. A Rio+20 é assim conhecida porque marca os vinte anos de realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Eco-92) e deverá contribuir para definir a agenda do desenvolvimento sustentável para as próximas décadas. A conferência terá dois temas principais: 1) A economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza e; 2) A estrutura institucional para o desenvolvimento sustentável. Entendemos a Rio+ 20 como é um lugar da diplomacia, oficialidade, burocracia, com uma grande importância e merece atenção.
Paralelamente à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (UNCSD), a Rio+20, acontece também a Cúpula dos Povos na Rio+20 que é um evento organizado pela sociedade civil onde se pretende discutir a Justiça Social e Ambiental. A ideia é que a Assembleia Permanente dos Povos – o principal fórum político da Cúpula, se organize em torno de três eixos e debata as causas estruturais da atual crise civilizatória, sem fragmentá-la em crises específicas – energética, financeira, ambiental, alimentar. Com isso, espera-se afirmar paradigmas novos e alternativas construídas pelos povos e apontar a agenda política para o próximo período. Os três eixos são: denúncia das causas estruturais das crises, das falsas soluções e das novas formas de reprodução do capital, soluções e novos paradigmas dos povos e estimular organizações e movimentos sociais a articular processos de luta anticapitalista pós-Rio+20. As juventudes de todo o mundo estarão presentes e participando ativamente da Cúpula dos Povos e da Rio+20..       
É na Cúpula dos povos, espaço de organização dos coletivos de movimentos sociais, pastorais e organizações, que queremos reafirmar o lugar da sociedade organizada para a conquista do Bem Viver. Os povos querem dizer sua palavra, reconhecendo a importância da conferência oficial, mas sabemos dos limites dessa “oficialidade” tendo em vista que o atual sistema de produção e consumo, não está à serviço da vida das pessoas, mas do capital.
  Na convergência do diálogo entre os coletivos que estão na defesa da vida, assumimos a opção radical pelos direitos humanos através da defesa e preposição de uma economia à serviço da vida.  Neste sentido os/as jovens irão unir suas vozes a tantas outras no grito contra a economia verde e o processo de mercantilização da natureza. Não acreditamos que a única ação de reciclar e privatizar os recursos naturais, sejam suficientes para o Bem Viver, e sim apoiar, fortalecer e fomentar a intervenção em situações que impedem grande parte da humanidade de viver com dignidade. A profecia do Reino e da Civilização que sonhamos e lutamos.
No caminho da revitalização da PJ devemos dar-nos conta que os/as jovens sempre participaram ativamente das lutas ambientais e sociais. Uma pastoral da juventude encarnada na vida da juventude e fiel ao seguimento de Jesus se une aos/às jovens em suas lutas ambientais e se compromete com a vida do planeta, nossa casa. No III Congresso Latino-Americano de Jovens, realizado na Venezuela em 2010, a Igreja jovem ali presente dizia na mensagem final do Congresso: “Advertimos sobre as ações de algumas empresas nacionais e transnacionais perigosas para a Natureza e para nossos povos, especialmente as ocasionadas por empresas de agroindústria, petroleiras e mineradoras. Cremos que nós, jovens, somos chamados/as a defender a Criação de Deus, assumindo nosso discipulado missionário. Jesus nos impulsiona a transformar nossa realidade como agentes de mudança e sujeitos ativos nos contextos políticos, econômicos, eclesiais e sociais, com consciência crítica e participação cidadã.”
Tendo em vista a participação dos/as jovens na Cúpula dos Povos e reconhecendo que a juventude sempre participou das lutas pela vida no planeta a PJ organizou um subsídio para os grupos de jovens: “Cúpula dos Povos na Rio+20 – Subsídio para os Grupos de Jovens”. Todos/as são chamados/as a estudar e debater a Rio+20 em seus grupos.
Oxalá, neste caminho de revitalização de nossa ação com os/as jovens e nesse tempo de grandes debates sobre a vida do planeta, aprendamos do Jovem de Nazaré o cuidado com a vida do planeta e que ao segui-lo e na opção preferencial pela juventude, possamos doar nossas vidas pela vida da juventude e pela vida do planeta.
Seguimos firmes, nos passos do Jovem de Nazaré, com os/as jovens calçando as sandálias da defesa da vida da juventude e do planeta para a implementação de um projeto de sociedade, a Civilização do Amor.


Alessandra Miranda - Comissão Nacional de Assessores/as da PJ e Assessoria em Direitos Humanos da Cáritas Brasileira
Pe. Maicon André Malacarne – Assessor da PJ da Diocese de Erexim
Luis Duarte Vieira – Militante da PJ e Vocacionado Jesuíta
Gabriel Jaste – Membro da Coordenação Nacional da PJ pelo Regional Leste 1
Paulinha Cervelin Grassi – Membro da coordenação Nacional da PJ pelo Regional Sul 3 e representante da PJ no CONJUVE


Na elaboração deste texto utilizamos informações dos seguintes sites que também podem ser acessados para saber mais da Rio+20 e da Cúpula dos Povos: